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Como se manter seguro na cobertura de conflitos violentos na América Latina

Este é o terceiro capítulo de uma série sobre a cobertura de conflitos violentos na América Latina. *

Este artigo foi atualizado**

Ilustração: Pablo Pérez "Altais"

A cobertura de conflitos violentos foge da imagem tradicional do front de uma guerra para jornalistas que atuam na América Latina. Em meio à violência urbana cada vez mais presente em vários países, os repórteres precisam estar preparados para agir rápido nas situações mais inesperadas. Ter um treinamento de segurança adequado tornou-se tão fundamental quanto carregar o velho bloco de notas e o gravador à mão.

Isso porque repórteres estão sujeitos a coberturas arriscadas de situação de conflito violento no seu dia a dia. Podem ser confrontos entre traficantes de drogas rivais ou entre essas quadrilhas e as forças de segurança ou mesmo situações de confronto militar contra grupos guerrilheiros.

Treinamento e colaboração

O diretor de jornalismo da TV Globo em Belo Horizonte, Marcelo Moreira está envolvido com treinamento de segurança de jornalistas brasileiros desde 2006, quando os primeiros cursos na área foram oferecidos para jornalistas de Rio e São Paulo. Esses treinamentos, segundo Moreira, incluem workshops de duas horas e atividades de dois dias com aulas práticas e teóricas.

Nas aulas práticas, os jornalistas passam até por simulações de tiroteio, um risco que faz parte da rotina de repórteres que cobrem violência e segurança pública no Rio.

Marcelo Moreira, da TV Globo_ treinamento de cobertura de conflitos violentos precisa incluir executivos e editores. Foto_ cortesia.

Marcelo Moreira, da TV Globo: treinamento de cobertura de conflitos violentos precisa incluir executivos e editores. Foto: cortesia

“Onde eles treinam policiais, a gente treina jornalistas. Eles aprendem noções de balística e de equipamentos de proteção. Têm orientação de primeiros socorros, de como deve se proteger, de posicionamento. É um treinamento customizado para quem vai enfrentar nossa situação de conflito armado”, disse Moreira à LJR.

O jornalista, que presidiu a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) entre 2012 e 2013, cita algumas das dicas cruciais para quem está no meio do fogo cruzado.

“Não se deve ficar atrás de um poste porque ele é oco. Melhor é uma árvore, mas desde que tenha um tronco suficiente para que uma bala não atravesse. Se for se esconder atrás de um carro, procure ficar atrás do bloco do motor, porque se ficar só atrás da lataria, você vai ser ferido.”

Fotojornalista que acompanhou a violência urbana no Rio durante muitos anos pelo jornal carioca O Dia, Severino Silva alerta para a importância de o profissional da imprensa observar tudo ao redor e se manter longe do centro das atenções na cobertura de conflitos violentos.

“Ao entrar em uma comunidade para cobrir um tiroteio, digo sempre para manter olhos e ouvidos bem ligados e não ficar falando. Eu também tirava o toque do celular, deixava só para vibrar. No caso da fotografia, não usava flash”, conta à LJR.

Avaliação de risco

Muito antes de lidar com a situação na prática, no entanto, é preciso realizar um rigoroso processo de preparação, desde o surgimento da ideia da pauta. Um item essencial a ser levado em conta é a avaliação de risco, que permite mapear diversos problemas que podem vir a ocorrer durante a cobertura, mesmo que a matéria não envolva, a princípio, um conflito.

Fundador e CEO da GJS, empresa americana de treinamento e apoio a jornalistas em ambientes hostis, Frank Smyth ensina seus alunos, em maioria jornalistas investigativos, a criarem uma “hierarquia do risco” na hora de definir entrevistas. Nesse sistema, uma fonte conhecida e confiável recebe nota 1, o grau mínimo de risco; no extremo oposto, caso o entrevistado seja suspeito de algum crime ou um policial corrupto, a nota pode variar de 7 a 10.

“O que isso significa é que, primeiro, você conversa com as pessoas que oferecem menos riscos. E só fala com quem oferece riscos maiores, se for necessário, no fim da investigação”, disse Smyth à LJR, que também escreveu o Guia de Segurança para Jornalistas do CPJ, que contém capítulos sobre preparação para conflitos armados, assim como sobre a cobertura de crime e corrupção.

Como repórter, ele chegou a ser sequestrado com outros colegas durante a cobertura da Guerra do Golfo, em 1991. “Deveríamos ter sido mais cuidadosos e ido embora mais cedo da onde estávamos, junto com outra colega, mas ficamos e pagamos o preço. Então, uma das coisas que ensinamos na aula é dar a si próprio uma margem de erro em qualquer situação.”

Engana-se, no entanto, quem pensa que a definição de protocolos de segurança para jornalistas deve envolver apenas o repórter atribuído para a pauta. A prevenção deve partir de quem ocupa cargos superiores em uma redação, defende Moreira. Para o diretor de jornalismo da Globo em Belo Horizonte, a alta cúpula precisa estar ciente da importância da segurança para seus profissionais, ao passo que chefes de reportagem e editores devem fazer parte dos treinamentos junto com os repórteres, para saber como lidar em diferentes situações.

“Nos treinamentos, focamos muito na necessidade de perder tempo na redação para planejar como vai ser feita a cobertura na rua. É mais do que simplesmente mandar uma pessoa só porque ela foi treinada. Qual é o plano de fuga do repórter no caso a matéria dê errado? Se for num lugar de risco, como ele é monitorado? Todo investimento em tecnologia e planejamento tem que contar com a participação da chefia. O repórter sozinho não faz isso”, explica Moreira.

No México, país onde mais morrem jornalistas na América Latina, a ONG Artigo 19 alerta que os jornalistas mais vulneráveis são os que cobrem temas relacionados a política local, segurança, crime organizado e narcotráfico.

Segundo a coordenadora de prevenção da ONG no México, Itzia Miravete, a construção de redes de apoio fortalece as capacidades de defesa e proteção dos profissionais, e pode diminuir o risco. Ela sugere também manter um registro de incidentes, como amaeças diretas ou tiroteios, para que se meça o risco de maneira mais clara e se possa tomar ações preventivas no futuro.

“Uma vez identificadas as possíveis ameaças, bem como vulnerabilidades e capacidades, sugerimos trabalhar em um protocolo que consiga implementar medidas para transformar pontos fracos em fortes e inibir a probabilidade e o impacto de um ataque. Por fim, sugerimos que as medidas adotadas tenham uma perspectiva preventiva, mas também atuar durante a emergência e após a agressão para trabalhar os impactos psicoemocionais desse risco,” disse Miravete à LJR.

Como uma guerra

Conflitos violentos na América Latina geralmente envolvem situações e preparação semelhantes à coberturas em uma zona de guerra. É o que podemos aprender com alguém que fez reportagens tanto na América Latina quanto em zonas de guerra em outros países.

A necessidade de acumular o máximo de informação possível antes de sair da redação e carregar equipamentos de segurança permanece, como capacetes e coletes a prova de balas. Saber onde ir, que estradas usar e como se comportar de maneira calma e tranquila quando abordado por forças de segurança ou mesmo criminosos é essencial, mas essa preparação não é o bastante.

Especialistas em cobertura em áreas de combate alertam para a importância de contratar um profissional que pertença ao local e sirva como um “braço direito” para o repórter em todas as suas atividades na região. Esse “braço direito” se chama fixer, e exerce múltiplas funções: guia, consultor de segurança e até mesmo ajudante na elaboração de pautas.

Yan Boechat_ ‘quanto menos grana se tem, mais em risco você se coloca’. Foto_ cortesia

Yan Boechat: ‘quanto menos grana se tem, mais em risco você se coloca’. Foto: cortesia

“Em geral, você está botando sua vida na mão dele. E ele consegue fazer uma avaliação dos riscos que você vai enfrentar ali, porque conhece o terreno de verdade. Sem uma pessoa para me guiar ali, fico em vulnerabilidade absoluta. O fixer é fundamental, mais do que um colete à prova de balas”, disse à LJR o repórter brasileiro Yan Boechat, da emissora de televisão Band, que já cobriu conflitos na Venezuela, Afeganistão, Síria, Iraque, Etiópia e Ucrânia.

A contratação de um fixer experiente nessa função, porém, esbarra em limitações financeiras, uma realidade para vários freelancers e jornalistas de veículos pequenos que precisam se aventurar nesse tipo de jornada. E não há dúvida entre os especialistas em segurança jornalística: freelancers ou repórteres de redações com menos recursos estão mais expostos aos riscos na cobertura de conflitos.

“Quanto menos grana tem, mais em risco você se coloca. Com pouco dinheiro, tenta-se extrair o máximo possível daquilo ali. Vai trabalhar horas e horas, não vai estar com o carro mais legal, não vai estar com o melhor fixer. E aí comete erros que não deveria cometer”, afirma Boechat.

Mesmo quando os jornalistas estão trabalhando em suas próprias cidades e podem conhecer o terreno sem a necessidade de um fixer, ainda existem disparidades. Repórteres de grandes organizações de notícias podem ser mais bem treinados em medidas de segurança ou ter equipamentos mais adequados do que freelancers ou repórteres em veículos menores, que não têm muitos recursos.

A decisão de não ir

Severino Silva: ‘se você não se sentir seguro, não vá.’ Foto: cortesia

Severino Silva: ‘se você não se sentir seguro, não vá.’ Foto: cortesia

Mesmo tomando todas as precauções possíveis e adotando as mais variadas medidas de segurança para uma cobertura de risco, o jornalista precisa se sentir confortável para fazer uma escolha que parece frustrante, mas às vezes se impõe como a decisão mais adequada para preservar a vida: a conclusão de que não vale a pena cobrir a pauta desejada.

“Isso é algo corajoso de se fazer, e não covarde. Eu deveria ter feito isso no Iraque ou em outros lugares, parar e pensar: ‘isso é muito perigoso’. Tomar essa decisão é importante”, reforça Smyth. Severino Silva acrescenta que “nenhuma imagem vale sua vida (...) se seu coração estiver ali e você não se sentir seguro, não vá.”

**Este artigo foi atualizado em 6 de março de 2022

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*Este é o sexto artigo de um projeto sobre segurança de jornalistas na América Latina e no Caribe. Este projeto da LatAm Journalism Review é financiado pelo Fundo Global de Defesa da Mídia da UNESCO.

Leia os outros artigos do projeto:

  1. Jornalistas precisam de mais preparação e garantias para cobrir com segurança protestos de rua na América Latina, dizem especialistas
  2. Jornalistas relatam casos de violência sofrida em protestos em 2021 na América Latina
  3. Preparação e acompanhamento do trauma são essenciais para jornalistas que cobrem protestos na América Latina
  4. Cobrir conflitos violentos: para jornalistas da América Latina, o desafio está em suas próprias comunidades
  5. Jornalistas latino-americanos que cobrem conflitos violentos em seus próprios países enfrentam incertezas e dinâmicas em transformação

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