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Cerca de 70% dos meios locais na Argentina trabalham principalmente com freelancers, de acordo com o relatório da FOPEA

Cerca de 70% dos meios locais na Argentina trabalham principalmente com freelancers fixos ou esporádicos, de acordo com um relatório do Foro de Periodismo Argentino (Fopea). Essa precarização tem piorado em metade das províncias do país, indica o estudo.

“A situação é desastrosa. É preciso buscar fontes de financiamento para a imprensa local, se realmente queremos que ela exista”, disse Fernando Ruiz, presidente da Fopea, à LatAm Journalism Review (LJR).

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(Foto: Canva)

Para o relatório “Situação do Jornalismo Local na Argentina”, a Fopea entrevistou 2.464 meios de comunicação e 13.597 jornalistas das 23 províncias do país e do distrito federal, a Cidade Autônoma de Buenos Aires. A pesquisa, conduzida entre dezembro de 2020 e maio de 2021, foi financiada pela Google News Initiative.

“Os dados corroboram a percepção de que é cada vez mais difícil para jornalistas conseguir um emprego em regime de dependência [contrato formal e tradicional de trabalho] na Argentina”, aponta o estudo.

Nas províncias de Jujuy, La Rioja e Formosa, onde segundo o estudo há maior geração de empregos e um setor público mais amplo, há mais veículos de comunicação com jornalistas em regime de dependência. No entanto, a província e a cidade de Buenos Aires, bem como Catamarca, Chaco, Corrientes, Entre Ríos, La Pampa, Mendoza, San Juan, San Luis, Santiago del Estero e Tucumán mostraram maior precariedade laboral para jornalistas.

Embora indique que as redações pesquisadas possuem características diferentes, o relatório constatou que 31,7% dos meios de comunicação relataram ter “outras formas de relação de trabalho” com seus jornalistas. Cerca de 20% admitiram pagar os seus jornalistas como colaboradores independentes e cerca de 17% afirmaram que a remuneração era paga com comissões de publicidade ou venda de espaços, como “minutos no ar na rádio ou blocos de programas de televisão”.

“O modelo de dependência em uma empresa ou instituição começa a se tornar inacessível, e em seu lugar surge o paradigma do jornalista empreendedor, que abraça novas tecnologias para criar meios de uma única pessoa, onde o proprietário lida simultaneamente com a administração e o jornalismo", diz o estudo.

A Fopea propôs uma Cláusula de Transparência Federal, que exige que nos grandes contratos públicos de cada comunidade haja o compromisso de divulgar as características e seu desenvolvimento na imprensa local.

A primeira parte da investigação da Fopea foi publicada em junho do ano passado. Nessa primeira fase, o relatório focou em averiguar quais eram as zonas de desertos de notícias no país. O estudo descobriu que cerca de 50% do país era um deserto de notícias "sedento por cobertura".

Além de abordar as condições de contratação de jornalistas, a investigação também coletou dados de gênero, como a presença de mulheres em cargos de direção na imprensa, o tipo de plataforma utilizada pelos meios, os anos de operação, o tipo de cobertura local e suas fontes de receita.

A próxima edição da pesquisa será no dia 7 de outubro, sobre informações de gênero na imprensa, informou Ruiz.

A Fopea registra desde 2017 a aguda crise que atravessa o jornalismo argentino. Demissões em massa, fechamentos de meios, grupos empresariais que desaparecem ou saem do setor e a precarização das condições laborais têm sido as principais causas e efeitos da crise jornalística no país, segundo a entidade.

“Hoje o jornalismo, exceto por alguns meios de comunicação, não pode oferecer um trabalho decente a um jornalista”, enfatizou Ruiz. “Depois de nosso estudo sobre desertos de notícias isso ficou claro, e quando nos concentramos no tipo de contrato de trabalho que os jornalistas têm, o que vimos é ainda pior. Fazer jornalismo de qualidade é praticamente um milagre nessas condições”.

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