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Brasileiras criam newsletter para informar sobre Nordeste e fortalecer jornalismo independente na região

A jornalista Mariana Ceci estava cansada de não se enxergar nas notícias sobre o Nordeste, comumente retratado na imprensa tradicional em matérias sobre seca, fome e pobreza. Ela, que nasceu e mora em Natal (RN), reclama que tem dificuldades para encontrar notícias sobre a região.

"Tenho mais acesso à informação sobre o que está acontecendo em São Paulo do que sobre a Paraíba, que está aqui do lado. E muitas vezes isso me interessa mais, porque está mais próximo e é mais parecido com a minha realidade", disse ela, em entrevista à LatAm Journalism Review (LJR).

Logo cajueira

Logo da newsletter Cajueira

Essa vontade, de achar conteúdo jornalístico que retrate a região sem estereótipos, era compartilhada por outras três jornalistas nordestinas: Nayara Felizardo, Mariama Correia e Joana Suarez. Desse anseio surgiu a Cajueira, uma newsletter quinzenal lançada em novembro de 2020. O boletim foi idealizado por Correia – ela convidou as outras três jornalistas, que atualmente tocam o projeto. Por enquanto, todas atuam de forma voluntária, porque a newsletter é gratuita e não tem financiamento ou fonte de receita.

O objetivo da Cajueira é fazer uma curadoria de reportagens publicadas por veículos nordestinos independentes, principalmente nativos digitais – matérias da imprensa tradicional local não entram na seleção. Com isso, buscam ajudar pessoas que querem saber mais sobre o Nordeste, que é a segunda região mais populosa do país, concentrando mais de 27% dos brasileiros.

A região também é a que tem o maior número e a maior proporção de desertos de notícias, que são municípios sem veículos independentes de jornalismo, segundo o Atlas da Notícia. São 1.318 desertos, ou seja, 73,5% dos municípios nordestinos não tem nenhum meio de comunicação. Nesse contexto, a Cajueira também tem a missão de divulgar e fortalecer o jornalismo independente no Nordeste.

Mariana Ceci

Mariana Ceci, da Cajueira. Foto: Divulgação

Segundo as criadoras da Cajueira, que está na quarta edição, a newsletter já atingiu mais de 800 inscritos. "Percebemos que essa necessidade não era só nossa, muitas pessoas já não se enxergavam naquilo que estava sendo retratado na imprensa como sendo a realidade delas", conta Ceci, que trabalha como repórter do jornal Tribuna do Norte, fundado em 1950 e com sede em Natal.

Joana Suarez, que também faz a newsletter e trabalha como jornalista freelancer, concorda que a Cajueira teve uma ótima recepção. "Acho que faltava algo que olhasse para o Nordeste como um lugar de potencial", afirmou ela à LJR.

As duas contam que o convite para participar da newsletter foi irrecusável. "Na hora eu aceitei, sentíamos que era algo que estava entalado na garganta. Nós compartilhávamos a mesma inquietação, de sentir que o Nordeste só era pauta dentro de certos contextos, e coisas que estavam acontecendo aqui, que tinham interesse nacional, eram deixadas de lado", diz Ceci.

Para Suarez, que é do Recife (PE), a newsletter se encaixou perfeitamente com a sua "bandeira de sair do eixo Rio-São Paulo e descentralizar mais o Brasil". Na sua carreira, ela vinha fazendo esse caminho: depois de trabalhar anos em um jornal em Belo Horizonte (MG), decidiu se mudar para seu estado natal. "Fui buscar essa carreira nacional em Recife ao invés de ir para São Paulo, que seria talvez o movimento natural. Mas eu queria olhar para o Nordeste como pauta nacional. E como freelancer lá acabei publicando em mais de 15 veículos", conta.

Ela acredita que a pauta da diversidade regional só ganhou importância nos últimos anos no Brasil. Mesmo em veículos independentes e jovens, diz Suarez, em que há uma preocupação com diversidade social, racial e de gênero, ainda falta um olhar para a questão regional. Suarez afirma que alguns acontecimentos recentes, como o colapso da saúde em Manaus, no Norte do país, deixaram clara a necessidade de ter repórteres nesses locais.

"A gente precisa ter jornalistas, diversos regionalmente, em seus territórios, não só um nordestino trabalhando em São Paulo ou um correspondente do jornal enviado ao local, porque quem mais conhece o território é quem está lá, no dia a dia", argumenta Suarez.

Apesar dessas falhas na cobertura da região pela imprensa tradicional, há muitas iniciativas de jornalismo independente surgindo no Nordeste, apontam as jornalistas da Cajueira. Segundo elas, a newsletter quer agregar valor ao jornalismo profissional e de qualidade que está sendo feito localmente, "com todo rigor e compromisso", mas que muitas vezes não ganha notoriedade e visibilidade nacional.

"Em outras regiões, onde circula mais dinheiro, as iniciativas de jornalismo independente tiveram mais oportunidade de brotar e se manter. Então a ideia é divulgar as iniciativas que estão nascendo aos montes aqui, dentro dos parâmetros de jornalismo que consideramos sério e de credibilidade, para que possam se sustentar. É uma questão urgente", afirma Ceci.

Assim, as criadoras da Cajueira acreditam que a newsletter interessa não apenas ao público geral, mas também a jornalistas que queiram conhecer esses novos veículos. "Inclusive para comunicadores do Nordeste, para eles verem entre eles o que têm feito e para incentivar mais produtos e coletivos", conta Suarez.

As edições, que já abordaram temas como a pandemia de COVID-19 e as eleições municipais de 2020, também tratam de assuntos relacionados ao jornalismo. Na última, de janeiro, as criadoras da Cajueira entrevistaram nove comunicadores da região para falar sobre as perspectivas para 2021. Além de divulgar a produção desses sites, a newsletter costuma pedir para os leitores apoiarem, com doações ou assinaturas, os veículos nordestinos.

Joana Suarez: em dois anos, publicou em 15 veículos diferentes. Foto: divulgação

Joana Suarez, da Cajueira. Foto: divulgação

"Também fizemos uma edição só sobre podcasts de jornalismo do Nordeste, para diversificar os sotaques na podosfera, porque a maioria dos podcasts brasileiros são do Sudeste. Assim as pessoas podem se acostumar com outras gírias, outros sotaques, e se perceber em um Brasil mais plural e mais diverso do que a televisão mostra", diz Suarez.

A escolha do nome, Cajueira, é em homenagem ao cajueiro, árvore típica da região. "Escolhemos o caju, uma fruta nativa do Nordeste, doce, suculenta, que gera a castanha e é usada para fazer um milhão de coisas, muito pra sair dessa imagem de seca, deserto e fome do Nordeste. Como somos quatro mulheres, então ficou Cajueira", explica Suarez.

Essa vontade de quebrar estereótipos sobre a região é um dos propósitos da newsletter. No manifesto da Cajueira, as jornalistas afirmam que a mídia tradicional ajuda a cristalizar símbolos no imaginário popular, retratando o Nordeste como o lugar da paisagem ressequida, do deserto, ou das praias paradisíacas, "o lugar de férias". Segundo o texto, essa visão polarizada contribui para reforçar preconceitos, como o do “nordestino preguiçoso” e de "um território carente e atrasado, onde vive uma população inculta, porém resiliente, em luta pela sobrevivência".

As jornalistas reforçam que essa visão busca "homogeneizar as realidades de um território  diverso" e ignora a relevância histórica, cultural e econômica dos nove estados da região. Por isso, elas defendem que a Cajueira é uma forma de tentar reinventar o Nordeste: uma curadoria de "conteúdos inspiradores, inovadores e plurais", produzidos em um território fértil.

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