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Programa Tim Lopes, da Abraji, investiga assassinato de radialista e pergunta: ‘Quem matou e quem mandou matar Jairo de Sousa?’

Na última sexta-feira, dia 21 de setembro, completaram-se três meses do assassinato do radialista Jairo de Sousa em Bragança, no Pará, região Norte do Brasil. O Programa Tim Lopes, da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji), tem acompanhado o caso e produziu a reportagem abaixo, republicada por alguns dos parceiros da iniciativa: Agência Pública, Correio (BA), O Globo, Poder 360, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora e Veja. O Centro Knight para o Jornalismo nas Américas reproduz a reportagem de Angelina Nunes, coordenadora do programa Tim Lopes, sobre as circunstâncias que cercam o assassinato do comunicador.

Quem matou e quem mandou matar Jairo de Sousa?

Por Angelina Nunes*

O assassinato do radialista Jairo de Sousa, de 43 anos, em Bragança, no nordeste do Pará, completou três meses na última sexta-feira, 21 de setembro, sem que nenhum suspeito tenha sido apontado. Para pedir celeridade nas investigações, Jairo José Sousa Jr., de 18 anos, filho do radialista, disse que estava programada uma manifestação na cidade. Junior, como é chamado, ajudava o pai na rádio e nutre o sonho de ser radialista: “O espírito de luta dele está em mim. O que está errado tem de mudar. Medo, a gente sempre tem, mas a luta não pode parar.”

 O radialista Jairo de Sousa (Rafael Oliveira/Abraji)

Os dois tiros que mataram seu pai levantaram um véu que encobre transações de negócios públicos e privados na região. O crime espalhou medo em outros colegas de profissão e revelou a existência de uma lista de quatro alvos marcados para morrer - o radialista era o segundo nome na lista. Há 12 anos, ele usava colete à prova de balas por conta das ameaças recebidas ao longo de sua carreira em emissoras de municípios vizinhos e em Bragança. Naquela madrugada, estava sem o colete.

Em seu programa, que começava às 5h, Sousa fazia denúncias, como obras realizadas por empresas que pertencem a parentes de prefeitos e secretários, falta de merenda escolar, editais com licitações direcionadas e oferta de emprego feita por secretário a vereadores em troca de votos e apoio político. Horas após a sua morte, uma força-tarefa foi montada em Belém e iniciou a investigação, que está sob sigilo.

O caso está a cargo da equipe do diretor da Divisão de Homicídios da Polícia Civil do Pará, Fernando Bezerra, que recebeu os áudios dos últimos dois meses do programa de Jairo, onde ele cita pelo menos duas dezenas de pessoas ligadas às denúncias. Essas pessoas já foram ouvidas pelos policiais, que continuam em diligência pela cidade.

A rotina do radialista era conhecida por seus ouvintes. Ele não escondia os horários de chegada, dez minutos antes de começar o programa, e de saída da rádio, quatro horas mais tarde. A polícia investiga quem seria o mandante e o atirador, que estava em um carro estacionado em uma rua próxima. Em um vídeo, o assassino sai do carro, caminha na direção do prédio onde fica a rádio e depois volta correndo para o veículo, onde estariam outros dois homens.

A investigação do delegado Dauriedson Bentes da Silva já identificou a existência de um segundo carro que ficou parado próximo ao portão que dá acesso a uma escada no antigo prédio sem elevador, onde a rádio está instalada no quarto andar. Além de dar cobertura para o assassino, a função dos ocupantes do carro seria a de identificar o radialista.

Jairo de Sousa chegou ao local, abriu o cadeado e passou pelo portão, colocando novamente o cadeado. Ele tinha subido apenas três dos 21 degraus da escada quando foi atingido por dois tiros que entraram na lateral do abdome. Segundo uma testemunha, o radialista ainda correu, mas não atingiu o topo da escada. Na parede e no chão ficaram as marcas de sangue feitas quando o radialista se desequilibrou e rolou alguns degraus. Ele ainda teve tempo de dar as chaves para os dois homens que o socorreram e abriram o cadeado. Foi levado para o Hospital Santo Antônio Maria Zaccaria, onde morreu. O assassino usou um revólver calibre 38.

Programa Tim Lopes

A morte de Sousa é o segundo caso investigado pela equipe da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) dentro do Programa Tim Lopes, financiado pela Open Society Foundations. O primeiro foi o de Jefferson Pureza, de 39 anos, em Edealina, no interior de Goiás, executado com três tiros na cabeça quando descansava na varanda de sua casa, em 17.jan.2018. Seis pessoas estão detidas.

O vereador José Eduardo Alves da Silva (PR), acusado de ser o mandante, e outros dois homens que participaram da negociação do crime, esperam o julgamento. Três menores cumprem medidas socioeducativas: um atirou, o outro pilotou a moto e o terceiro recrutou os dois para a realização do crime que custou R$ 5 mil mais um revólver 38.

Os dois casos mostram uma realidade do chamado Brasil Profundo, onde o trabalho de comunicadores encontra-se sob risco, na medida em que aumentam o tom das denúncias contra as autoridades locais.

“Jairo era um radialista que não tinha limites e denunciava autoridades, não só de Bragança como de outros municípios, sobre desvio de dinheiro público, obras inacabadas e crime organizado. Era uma bomba atômica ambulante. Batia forte, sem dó. Usava palavras pesadas como vagabundo, ladrão que rouba dinheiro de povo. Isso cria um certo ódio”, contou Gerson Peres Filho, diretor-geral da Rádio Pérola FM.

O primeiro reflexo do crime na rádio foi ocupar com música o horário que era do radialista. O choque da morte do colega fez com que Francy Rocha, que conhecia Sousa havia 20 anos, mudasse o perfil do programa: “Fiquei com medo. Antes eu também fazia comentários contra a corrupção, agora tudo mudou. A sua morte foi um recado para nos calar”.

A viagem antes da morte

No programa na véspera de sua morte, o radialista avisou aos ouvintes que no dia seguinte iria revelar o nome do vereador que estava negociando a distribuição do Cheque Moradia. O benefício de R$ 15 mil seria entregue a moradores que perderam suas casas na inundação de maio de 2018. Algumas lacunas ainda precisam ser preenchidas para reconstituir o que aconteceu depois que ele saiu da rádio, pouco depois das 9h. De lá, ele percorreu 103 quilômetros de Bragança até Igarapé-Açu, passando por Capanema, Peixe-Boi e Timboteua. No entanto, esse trajeto levou mais tempo do que o habitual. Segundo o delegado Dauriedson da Silva, há um intervalo entre 9h e 15h, no qual ainda não se sabe onde estava o radialista, já que ele teria chegado a Capanema, que fica a 53 km de distância de Bragança, depois das 15h.

Tanto na ida, quanto na volta, Sousa fez ligações para sua ex-mulher Cristina Sousa, de 33 anos, com quem viveu 18 anos e teve dois filhos. Mesmo depois do outro casamento de Jairo, cinco meses antes de sua morte, os dois mantinham uma boa relação. O radialista almoçava todos os dias com Cristina e os filhos, de 17 e 13 anos, além de manter o ritual de ligar para ela quando iniciava e terminava o programa.

“Perguntei se estava tudo bem e se ele estava de colete, e ele respondeu que sim. A última vez que falei com ele foi às 19h49, quando ele já estava em Bragança. Combinamos de almoçar no dia seguinte”, relembrou Cristina.

Ela também acolheu um outro filho do radialista, de 20 anos, de um casamento anterior. Ao todo, Jairo casou três vezes e teve 14 filhos, dentro e fora dos casamentos. Além do hábito de usar colete, também tomava outra precaução: mudava de carro constantemente. De acordo com Cristina, não ficava nem seis meses com um veículo: “Ele recebia telefonemas com número desconhecido. Dizia para eu não atender, nem abrir a porta para quem não conhecesse”.

Sousa, que já trabalhara na Rádio Pérola FM, em Bragança, duas décadas antes, voltou para o microfone daquela rádio oito meses antes de sua morte. Antes, ficou uma década em Capanema, na Rádio Princesa, do deputado federal Wladimir Costa (SD), com o programa Patrulhão 106. O radialista foi candidato a vereador em Tracuateua, em 2012 pelo PRB, teve 286 votos e não foi eleito.

Na viagem na véspera de sua morte, Sousa disse, em telefonema a Cristina, que fora a Igarapé-Açu “buscar um dinheiro”, mas sem dar mais detalhes. Segundo ela, o radialista saiu daquela cidade com R$ 1.300. Toda sexta-feira, ele entregava R$ 400 para manutenção dela e de seus filhos, além de levar compras para a semana.

A lista e o medo

Para quem está na lista dos quatro alvos, o medo é presente, e todo cuidado é necessário. O repórter Ronny Madson, da Rádio Educadora, disse que ele integrava um “grupo investigativo” ao lado de Sousa, do advogado e vereador Rivaldo Miranda (PMDB) e do empresário Gleidson Veras.

Eles coletavam provas e documentos e faziam denúncias de corrupção que eram veiculadas nas rádios, nas redes sociais e na tribuna da Câmara. Veras saiu com a família da cidade e ficou longe por 15 dias. “As denúncias envolvem milhões de reais. Ele (Jairo) achava que ninguém teria coragem de fazer essa covardia. Além da denúncia do Cheque Moradia, uns 15 dias antes, ele falou da falta de merenda escolar e de irregularidades na distribuição. Foi verificado que entregavam menos do que estava listado para ser distribuído”, disse Veras.

O empresário é autor de uma representação contra o prefeito de Bragança, Raimundo Nonato (PSDB); o secretário de Infraestrutura Urbana e Rural, Luciano Jorge Cecim Brito; e o empresário Armindo Abreu Freire Pinto, por indícios de desvios de recursos públicos, com obra executada em bem particular, em troca de favorecimento.

Deu entrada na documentação no Ministério Público de Bragança em 17.jan.2018. A denúncia tratava de fato ocorrido em 5.jan, quando o maquinário da empresa Rodoterra, do vereador Charles Williams Lobato de Oliveira (PSDB), o Charlão, junto com servidores da prefeitura e o secretário de Infraestrutura, asfaltou o condomínio de propriedade de Armindo, onde mora o vereador Bruno Lima (PMDB).

Outro integrante do “grupo investigativo”, o advogado e vereador Rivaldo Miranda, buscou autorização nos canais competentes para aquisição de um colete à prova de balas e de porte de arma. Como único vereador da oposição, coleciona inimigos. Ainda na noite do velório do amigo radialista, foi objeto de discussão entre membros de um grupo de WhatsApp do qual fazem parte desde a primeira-dama, Eliena Ramalho, até assessores, secretários e chefes de gabinete.

Na troca de mensagens, há recados como “era pra terem caído de porrada nele lá”, “era pra ter quebrado pelo menos uma costela” e até uma reclamação de quem do grupo teria “printado essa conversa” e enviado para o vereador.

“A morte de Jairo foi um choque. Ele dizia receber ameaças por telefone não identificado, mas não dava importância, não dava detalhes. Ele fazia denúncias com base em provas, em documentos”, afirmou Rivaldo Miranda.

O vereador é autor de várias representações contra a gestão municipal. Em uma delas, de 17.jul.2017, pede ao Ministério Público de Bragança providências para os crimes de corrupção ativa, condescendência criminosa, prevaricação e improbidade administrativa por conta de oferta de trabalho em troca de possível apoio político.

A ação cita Tiago Santos Costa, então secretário executivo de gabinete do prefeito, e o próprio Raimundo Nonato. Na transcrição de um áudio, Tiago cobra dos vereadores os nomes de seus indicados para trabalhar no Programa Mais Educação. Em duas mensagens, enfatiza que precisa dos nomes até “no mais tardar nove horas. Porque precisa ser feito logo o encaminhamento”. Depois da repercussão do caso, Tiago foi remanejado para a secretaria de Educação. Ele é casado com a irmã da mulher do prefeito.

Em uma ação popular, de 2.abr.2018, Rivaldo Miranda conseguiu suspender uma licitação para pavimentação de ruas em Bragança, no valor de R$ 2,9 milhões, alegando edital viciado. No item de qualificação técnica, a empresa licitante deveria apresentar documento “de propriedade ou arrendamento de usina de asfalto estabelecida na zona bragantina deste estado”. Na área da chamada microrregião bragantina, onde estão 13 municípios, apenas a empresa da família do prefeito tem uma usina de asfalto. A licitação suspensa voltou meses depois, sem o item questionado na ação.

O prefeito Raimundo Nonato foi procurado na cidade pela equipe da Abraji por três vezes. Um encontro foi marcado e, no dia seguinte, cancelado. Seus assessores alegaram que ele estava muito ocupado com atividades na prefeitura e lamentaram não poder atender ao pedido.

Negócios em família

Outras denúncias que estão nos áudios dos programas de rádio e que serão analisados pela polícia tratam de obras em Bragança e municípios vizinhos, onde os nomes de duas empresas se repetem: Rodoplan Serviço de Terraplenagem, criada em 2004, e Rodoterra Ltda-EPP, criada em 1995.

Documentos a que a equipe da Abraji teve acesso mostram que, no DNA dessas empresas, aparece o atual prefeito de Bragança, Raimundo Nonato de Oliveira, o Raimundão. Na ciranda de alterações de contrato social, a Rodoterra está atualmente nas mãos dos filhos do prefeito: Adriana Katie Lobato de Oliveira, Arcângela da Silva Oliveira do Rosário e Charles Williams Lobato de Oliveira.

Já a Rodoplan abrigou como primeiras sócias a mesma Arcângela e a irmã Patrícia da Silva Oliveira. Em documento de 3.set.2004 consta que, na época, Arcângela tinha 20 anos e Patrícia 22, ambas estudantes e moradoras de Ananindeua. A empresa, com capital social de R$ 400 mil, foi registrada com sede em Bragança, no bairro Vila Cururutuia, no ramal Benjamim Constant, 156, em terreno que fica ao lado da casa do prefeito.

Dez anos depois da abertura da empresa, Patrícia doou sua parte para o pai, na época com 68 anos. No documento registrado no dia 1.abr.2014, ainda consta que a irmã Arcângela, que possuía em moeda corrente o valor de R$ 1,5 milhão, doou R$ 900 mil do seu capital, sendo R$ 600 mil para o pai e R$ 300 mil para Eliena Caroline Ramalho Dias, de 24 anos, qualificada no documento como empresária e solteira, mas que já vivia com Raimundo. Naquele mesmo ano, em novembro, Arcângela, depois de casada, alterou seu nome na documentação e passou as cotas para o pai. Dessa forma, Raimundo e Eliena se tornaram os únicos sócios da empresa. O capital social registrado foi de R$ 3 milhões.

 Jairo estava em sua segunda passagem pela Pérola FM (Rafael Oliveira/Abraji)

Uma nova alteração ocorreu em 28.mai.2015. De olho nas eleições de 2016, Raimundo se retirou da sociedade, onde detinha 90% das cotas, no valor de R$ 2,7 milhões, e dividiu sua parte igualmente para três pessoas: a mulher, Eliena, o neto Lucas de Oliveira Lima e Moisés Batista de Oliveira Junior, ambos com 19 anos e qualificados como empresários. Eliena passou a ser a sócia majoritária e administradora da empresa.

Em 12.jun.2017, o capital social da empresa estava em R$ 5 milhões, e Eliena continuava na sociedade, apesar de o marido ocupar o cargo de prefeito e ela, o de primeira-dama e secretária de Promoção Social. A situação só se modificou em 14.set.2017, quando ela passou suas cotas para Luiz Otavio Maia Costa, de 58 anos. Essa mudança ocorreu pouco depois de a Rodoplan ganhar a licitação de R$ 16,9 milhões do governo estadual para pavimentar 35,5 km da PA 458, no trecho Bragança-Vila Ajuruteua.

Os parentes do prefeito se alternam no quadro de sócios das empresas e, quando necessário, o sócio de uma representa a outra. Em 20.abr.2017, a Rodoplan assinou um contrato com o governo do Pará (contrato 005/2017) para “recuperação e pavimentação asfáltica de vias urbanas”, num total de 40 km, ao custo de R$ 14,9 milhões. No documento, Adriana Katie Lobato de Oliveira assina o contrato como procuradora da Rodoplan. A mesma Adriana, filha do prefeito Raimundo Nonato, é sócia da Rodoterra, ao lado de dois irmãos, e também é mãe de um dos sócios da Rodoplan, Lucas. O rapaz tem hoje 22 anos. Os dois moram num condomínio no bairro Coqueiro, em Belém.

Bravata em vídeo

O fato de a empresa ser da família do prefeito rendeu ainda uma bravata de Raimundo Nonato que, em agosto de 2017, reclamava que o contrato (043/017) para a PA 458 ainda não havia sido assinado. A obra em questão entre a empresa e a secretaria estadual de Transportes do Pará tratava da pavimentação da rodovia 458 no “perímetro urbano de Bragança-Vila Ajuruteua com 35,5 km”, ao custo de R$ 16,9 milhões. Em um vídeo gravado por repórteres do Sistema Bragantino de Televisão (SBT), o prefeito reclamou que estava sendo boicotado pela secretaria de Transporte estadual e até pelo senador Flexa Ribeiro (PSDB).

Em seu discurso inflamado, Raimundo Nonato disse que ganhar uma licitação do Estado não era ilegal, nem imoral e que o próprio Flexa Ribeiro era sócio da Engeplan e também ganhava concorrências, assim como sua mulher e secretários, também donos de empresas. Afirmou ter documentos e poder provar tudo o que relatava. A bravata custou caro. No dia seguinte, pressionado, gravou um vídeo em que pedia perdão ao senador e dizia que tudo não passara de fofoca e que estava “de cabeça quente”. Um mês depois, a ordem de serviço para execução da obra foi assinada.

Em Bragança, tanto as revelações do prefeito como outros áudios e vídeos foram e são compartilhados por WhatsApp em vários grupos, além de ser sempre veiculados na rádio e em redes sociais. Um dos áudios que circula tem como personagem principal o prefeito da cidade, que fala ainda da PA 458 e de uma suposta propina de 25% para liberação da verba do contrato.

 Bragança tem cerca de 125 mil habitantes e fica a 220km de Belém (Rafael Oliveira/Abraji)

Jovens empresários, empresas mutantes

Na disputa por verbas federal, estadual e municipal, as empresas em Bragança e arredores também podem acelerar a mudança de nomes e até atividades para vencer licitações. Duas outras companhias eram alvos de críticas do radialista morto: a Terra Forte Terraplanagem e a Terra Forte Construção e Serviço. Os jovens que se apresentam hoje como donos dos negócios são Yann Victor Monteiro Leite e Odivaldo de Lima Leite Filho, conhecido como Dinho. Eles dividem nomes semelhantes de suas empresas, área de atuação e até o mesmo endereço residencial. Além do parentesco com o tio, Cesar Monteiro, vereador do PR e aliado do prefeito Raimundo Nonato.

A atual Torre Forte Terraplenagem nasceu como Labac - Laboratório Clínica Eireli, em 3.mar.2016, com um único sócio Junielson de Jesus Carmo, atividade no ramo da saúde e capital de R$ 250 mil. Dois anos depois, ela passou a se chamar Torre Forte Terraplenagem e mudou sua atividade para construção, obras de terraplenagem, aluguel de máquinas e obras de reurbanização de ruas e calçadas, entre outros. Junielson transferiu a titularidade da empresa para Yann Victor Monteiro Leite, de 25 anos, em 5.fev.2018.

A mudança teve efeitos imediatos. Um mês depois, no dia 9 de março, a nova empresa ganhava a obra de construção do muro de uma escola no valor de R$ 120,4 mil. E a rapidez em ganhar contratos continuou: apenas 12 dias depois, a empresa ganhou o pregão para uma operação tapa-buraco na cidade, no valor de R$ 1,3 milhão. Outros dois contratos chegaram no dia 11 de maio: um de R$ 126,5 mil para construção de muro de arrimo em um posto de saúde e outro de R$ 55,1 mil, para reforma em uma escola.

O caminho da Torre Forte Construção e Serviço foi semelhante. Começou como RF Pescado Ltda, em 18.out.2011, criada por Robson Fernando Ferreira de Sousa e Alice Monteiro de Sousa. Na época ele estava com 26 anos e ela, com 22; os dois apareciam nos documentos como comerciantes e moravam na mesma casa. Com capital de R$ 100 mil, a atividade da empresa era de peixaria, comércio a varejo de peças e acessórios de carros e motos, além de comércio varejista de artigo para vestuário.

Em 19.dez.2013, a empresa mudou o nome para Torre Forte Engenharia Ltda EPP, sob o nome fantasia de Sapucaia Indústria e Terraplenagem, os sócios originais cederam “por sua livre e espontânea vontade” suas cotas para os novos donos do negócio, os empresários Odivaldo de Lima Leite Filho, na época com 26 anos, e Adiel Oliveira da Silva, de 38 anos, moradores da mesma casa, no bairro de Riozinho, em Bragança.

Os que se retiraram da empresa disseram ter recebido R$ 50 mil cada um pelas cotas transferidas. Já os novos sócios aumentaram o capital da empresa para R$ 400 mil e passaram a ter outras atividades, desde serviço de terraplenagem até obras de urbanização. Em 12.jun.2014, o nome da empresa mudou de novo para Torre Forte Construções e Serviço e reduziu para R$ 100 mil o seu capital. Odivaldo continuou como administrador e sócio, com 95% das cotas. Cinco meses depois, outra mudança: Adiel saiu da empresa e o capital dobrou.

Em 14.abr.2015, Odivaldo transformou a empresa de sociedade limitada em empresa individual de responsabilidade limitada (Eireli). O capital estava em R$ 600 mil. Dois meses depois, transferiu o endereço e a atividade da empresa para Marabá, no sudeste do Estado, a 670 quilômetros de Bragança, para onde retornou oficialmente em 19.jan.2017, já na nova legislatura na qual o tio, Cesar Monteiro, ocupava o cargo de vereador.

*Angelina Nunes é mestre em Comunicação pela Uerj (RJ). Ela recebeu prêmios internacionais de jornalismo, como Rey de España, IPYS e SIP, e nacionais, como Esso, Embratel, Vladimir Herzog e CNH. É membro do International Consortium of Investigative Journalists (ICIJ) e coordenadora do Programa Tim Lopes.  

O Programa Tim Lopes é uma reação da Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo (Abraji) à violência contra jornalistas. Em caso de crimes ligados ao exercício da profissão, uma rede de veículos da mídia tradicional e independente é acionada para acompanhar as investigações e publicar reportagens sobre as denúncias em que o jornalista trabalhava até ser morto. Integram a rede hoje: Agência Pública, Correio (BA), O Globo, Poder 360, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora, TV Aratu, TV Globo e Veja.

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