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Universidade mexicana oferece formação em jornalismo investigativo com perspectiva de gênero

No fim de junho, uma reportagem do Portal Catarinas e do The Intercept Brasil revelou que uma menina de 11 anos, grávida após um estupro, estava sendo mantida em um abrigo a mando de uma juíza como medida para evitar que ela tivesse acesso ao aborto legal. A reportagem mostrou a série de violações de direitos às quais a menina estava sendo submetida e provocou um debate necessário no Brasil sobre violência sexual e barreiras no acesso a direitos reprodutivos. Nos dias seguintes à publicação da reportagem, a Justiça autorizou a saída da menina do abrigo e ela conseguiu ter acesso ao aborto legal, um direito estabelecido no país no caso de gestação decorrente de estupro.

Investigações jornalísticas frequentemente desvelam ilegalidades e injustiças e contribuem para a garantia e o acesso a direitos. No caso das desigualdades de gênero, o jornalismo investigativo também tem um papel crucial, como evidenciou este caso recente no Brasil. No entanto, para realizar uma investigação jornalística com perspectiva de gênero é importante se familiarizar com o tema para evitar a reprodução de noções sexistas ou a revitimização de vítimas de violência sexual, como a exposição de dados que possam levar à sua identificação, por exemplo.

Cientes de que estas questões são raramente abordadas em cursos de jornalismo, docentes da Universidade Autônoma Metropolitana do México (UAM) realizarão entre agosto e novembro um curso online em jornalismo investigativo e jornalismo com perspectiva de gênero. O curso será realizado em espanhol e, embora seu foco seja o contexto mexicano, está aberto a jornalistas de qualquer lugar do mundo.

“O jornalismo investigativo com perspectiva de gênero é um jornalismo que coloca no centro da investigação os direitos humanos das mulheres”, disse à LatAm Journalism Review (LJR) Lucía Lagunes Huerta, jornalista e socióloga mexicana especialista em comunicação não-sexista e uma das docentes do curso.

“É um jornalismo que posiciona como pressuposto as discriminações históricas vividas pelas mulheres, que propõe soluções e faz referência ao marco legal conquistado. Reconhece que a desigualdade e a discriminação são um processo histórico, não revitimiza e não naturaliza nem justifica nunca a violência contra as mulheres”, disse ela.

Huerta é coordenadora-geral da organização Comunicación e Información de la Mujer (CIMAC) e diretora-geral do portal CIMAC Noticias. Segundo ela, um exemplo de jornalismo investigativo com perspectiva de gênero é o especial “Justicia Patriarcal”, uma investigação realizada pelo CIMAC Noticias sobre machismo no Judiciário mexicano. O trabalho expôs casos de mulheres vítimas de violência que acabaram punidas pela Justiça do México enquanto seus agressores foram inocentados ou receberam sentenças leves ou simbólicas.

Para Huerta, o jornalismo que não incorpora a perspectiva de gênero é um “jornalismo enviesado”, pois “coloca como universal aquilo que ocorre com 48% da população, que é a população masculina”. A perspectiva de gênero proporciona “uma visão muito mais global do que se vai investigar”, disse ela, que avalia que “o jornalismo investigativo, no México e na América Latina, tem uma dívida com as mulheres”.

“Incorporar o reconhecimento à exclusão das mulheres e o dano que isso causou em sociedades como as nossas – estamos falando da América Latina, região mais desigual do mundo – me parece fundamental, porque evidenciar as condições estruturais que têm mantido o atraso do desenvolvimento da América Latina tem muito a ver com a condição de desigualdade que vivemos as mulheres”, disse Huerta.

Para ela, “estamos em um momento histórico onde o jornalismo tem que dar o salto qualitativo que requeremos para garantir uma ética jornalística que reconheça precisamente o direito das mulheres a serem nomeadas como agentes da História e reconhecer seus direitos humanos como parte integral, fundamental, dos direitos humanos da sociedade.”

Jornalistas na origem da mudança

O curso oferecido pela UAM acontece como parte da Cátedra Miguel Ángel Granados Chapa, criada em 2014 pela universidade em homenagem ao jornalista mexicano de mesmo nome, falecido em 2011. Arturo Barba, docente responsável pelo programa, disse à LJR que o objetivo da Cátedra é “impulsionar a profissionalização, capacitação e atualização das e dos jornalistas mexicanos”.

Segundo Barba, uma das principais atividades da Cátedra é a realização de um curso de formação a cada ano “sobre um tema conjuntural de grande impacto”. Em 2018, o tema foram as eleições daquele ano no México; em 2020 e 2021, o curso tratou da cobertura da pandemia de COVID-19.

“Este ano, com [o curso sobre] o jornalismo com perspectiva de gênero, buscamos sensibilizar as e os jornalistas em relação à situação atual das violências contra as mulheres no México, o grave problema que representa a inequidade de gênero, assim como os efeitos sociais, na saúde pública, na cultura e na economia da discriminação e da violação dos direitos humanos das mulheres”, disse ele.

Para Barba, trata-se de um “gravíssimo problema multifatorial, multisistêmico, complexo e que diz respeito a todas as esferas das atividades sociais”. “Tem a ver com a maneira de pensar das pessoas, a cultura e a forma de perceber a realidade. A única forma de mudar as consciências e essa percepção equivocada da realidade é através de conhecimentos fidedignos e verificados, e a base de todo conhecimento é a informação. Assim que os jornalistas estamos nesta base, na origem da possível mudança”, acredita ele.

conteúdo do curso contempla métodos e ferramentas para a realização de investigações jornalísticas, aliadas a análises das desigualdades de gênero e da situação das mulheres no México e fundamentos da comunicação não-sexista. A formação está aberta a comunicadores e estudantes de comunicação e jornalismo.

Barba sublinhou o contexto alarmante para jornalistas no México, tanto em relação à violência quanto em relação ao mercado de trabalho, e disse que são “duplamente admiráveis” profissionais que buscam se manter atualizados e participar de capacitações como esta.

“Os jornalistas devemos orientar nossa atenção e nossas habilidades a analisar este problema que vulnera a sociedade em seu conjunto. Por isso é urgente capacitar as e os jornalistas tanto em técnicas e métodos de investigação, como no conhecimento do impacto das violências contra mulheres. São histórias que ocorrem diariamente e devem ser bem contadas de maneira sistemática e cotidiana”, disse ele.

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